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Toque de alguém querido ajuda a aliviar a dor e reduzir o estresse

Psicólogos sempre estudaram os gemidos e olhares da comunicação não-verbal, os tons vocais e expressões faciais que carregam emoções. Um tom de voz ameno, uma encarada hostil – ambos possuem o mesmo significado em Terre Haute ou Timbuktu, e figuram entre os vários sinais que formam um vocabulário humano universal.

Nos últimos anos, entretanto, pesquisadores começaram a focar num tipo diferente de comunicação sem palavras, muitas vezes mais sutil: o contato físico. Toques breves, segundo eles – seja um vivaz cumprimento, uma mão apoiadora no ombro ou um toque apavorante no braço –, podem comunicar uma gama ainda mais ampla de emoções do que gestos e expressões, e algumas vezes o fazem com mais rapidez e precisão do que palavras.

“É a primeira linguagem que aprendemos”, afirmou Dacher Keltner, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e autor de “Born to Be Good: The Science of a Meaningful Life” (Norton, 2009), e segue sendo, segundo ele, “nossos meios mais ricos de expressão emocional” através da vida.

As evidências de que tais mensagens podem levar a mudanças claras – e quase imediatas – em como as pessoas pensam e se comportam estão se acumulando com rapidez. Estudantes que receberam um toque de apoio nas costas ou braço, por um professor, demonstraram quase o dobro de chances de se voluntariar na sala do que os outros, estudos descobriram. Um tapinha simpático de um médico deixa as pessoas com a impressão de que a consulta durou o dobro do tempo, em comparação a estimativas de pessoas que não foram tocadas.

Uma pesquisa de Tiffany Field, do Instituto de Pesquisa do Toque, em Miami, descobriu que uma massagem de alguém amado pode não só suavizar a dor, mas também acalmar uma depressão e fortalecer um relacionamento.

Numa série de experimentos conduzidos por Matthew Hertenstein e psicólogos da Universidade DePauw, em Indiana, voluntários tentaram comunicar uma lista de emoções tocando um estranho vendado. Os participantes conseguiram comunicar oito emoções distintas, de gratidão e aversão a amor, alguns com quase 70% de exatidão.

“Costumávamos pensar que o toque só servia para intensificar as emoções comunicadas”, afirmou Hertenstein. Mas isso acabou sendo “um sistema de sinalização muito mais diferenciado do que havíamos imaginado”.

Desempenho

Para verificar se um rico vocabulário de toques apoiadores está realmente relacionado ao desempenho, cientistas de Berkeley recentemente analisaram interações em uma das arenas mais fisicamente expressivas da terra: o basquete profissional. Michael W. Kraus conduziu uma equipe de pesquisa que codificou cada trombo, abraço e cumprimento numa única partida jogada por cada equipe da Associação Nacional de Basquete dos EUA, no início da última temporada.

Num artigo que deve sair este ano no jornal Emotion, Kraus e seus coautores, Cassy Huang e Keltner, relatam que, com algumas exceções, os bons times tendem a se tocar mais do que os piores. As equipes mais ligadas pelo toque eram os Boston Celtics e os Los Angeles Lakers, atualmente dois dos melhores da liga; no fim da lista estavam os medíocres Sacramento Kings e Charlotte Bobcats.

O mesmo também era verdadeiro, de certa forma, para os jogadores. O jogador que mais tocava era Kevin Garnett, a grande estrela do Celtics, seguido por Chris Bosh, do Toronto Raptors, e Carlos Boozer do Utah Jazz. “Cerca de 600 milissegundos após realizar um lance livre, Garnett já havia tocado quatro outros jogadores”, afirmou Keltner.

Para corrigir para a possibilidade de que os melhores times se tocariam mais simplesmente por estarem ganhando, os pesquisadores avaliaram o desempenho com base não em pontos, ou vitórias, mas numa sofisticada medição da eficiência de cada equipe e jogador em administrar a bola – sua proporção de assistências para pontos, por exemplo. E, mesmo depois de serem consideradas as altas expectativas em torno dos times mais talentosos, a correlação persistiu. Jogadores que fizeram contato com colegas de equipe de forma mais consistente tendiam a ter melhores avaliações em seu desempenho, e as equipes desses jogadores pareciam aproveitar melhor esse talento.

O estudo falhou em demonstrar que o toque gerava um melhor desempenho, reconheceu Kraus. “Ainda temos de testar isso num ambiente controlado de laboratório”, explicou.

Menos estresse

Se um cumprimento pode realmente aprimorar o desempenho, na quadra ou no escritório, o motivo pode ser a redução de estresse. Um toque de afeição parece desencadear a liberação de oxitocina, um hormônio que ajuda a criar uma sensação de confiança e a reduzir os níveis do hormônio do estresse, cortisol.

No cérebro, as áreas pré-frontais, que ajudam a regular as emoções, podem relaxar, libertando-as para outra de suas finalidades primárias: solucionar problemas. Na verdade, o corpo interpreta um toque de apoio como “Eu vou compartilhar a carga”.

“Achamos que os humanos constroem relacionamentos precisamente por esta razão, para distribuir a solução de problemas entre cérebros”, disse James A. Coan, psicólogo da Universidade da Virginia. “Nós nos conectamos para literalmente compartilhar a carga de processamento, e este é o sinal que recebemos quando sentimos apoio através do toque”.

O mesmo é certamente verdade para parcerias, e especialmente para o tipo romântico, dizem psicólogos. Num recente experimento, pesquisadores liderados por Christopher Oveis, de Harvard, conduziram entrevistas de cinco minutos com 69 casais, estimulando cada um deles a discutir períodos difíceis em seus relacionamentos.

Os investigadores classificaram a frequência e duração dos toques em cada casal, que estavam sentados lado a lado. Numa entrevista, Oveis disse que os resultados eram preliminares.

“Até agora, porém, parece que os casais que se tocam mais estão relatando uma maior satisfação no relacionamento”, afirmou ele.

Novamente, não se sabe o que veio primeiro, o toque ou a satisfação. Em relacionamentos românticos, contudo, sabe-se que um sempre leva ao outro. Ou, pelo menos, assim sugerem as evidências informais.

fonte: The New York Times


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